Rosano Mauro Jr./Divulgação /

Fiquei pensando: (i) O que um trabalho artístico como esse nos possibilita e (ii) o que o um fato como esse nos ensina?

Expor uma obra de arte ao público, num lugar público, sem grades, limites, proteções ou cuidados é mostrar que a arte não pode e nem precisa ter barreiras. Que qualquer proposta artística pode também ser aberta e deixada à experimentação pública e popular. É abrir-se à compreensão de que o que essa obra de arte é também pode ser compartilhada e (re)inventada por qualquer um que se aproxime para vê-la e experimenta-la. Mas, o que um fato triste como esse nos ensina? Talvez, em primeiro lugar, que o resultado de uma exposição aberta, em espaço público, sem restrições, é incerto. O resultado dessa exposição aberta, pública e interativa pode ser maravilhoso: com gente ao montes vendo de longe, de perto, fazendo piquenique ao lado e tirando fotos criativas. Mas pode ser inesperado: com sustos, rejeições e, eventualmente, alguma destruição (sem querer) ou depredação (proposital). Essa incerteza é algo que deve ser presumida e admitida pelo autor da obra. Isso não significa que se deva aceitar ou concordar com a destruição ou depredação da obra arte. É CLARO QUE NÃO!!!!! Por isso, talvez, em segundo lugar, alguma orientação e recomendação do artista ao público na interação com a obra possa ser salutar. Não para dizer qual deve ser a única interpretação possível da obra de arte, mas para que ele expresse qual foi o seu objetivo ao abrir e expor sua obra dessa maneira. Quem sabe algumas apresentações da obra ao público passante ajudasse a transmitir essa ideia… quem sabe um cartaz ao menos… talvez uma plaquinha dizendo: as formigas são frágeis, interajam com elas, mas cuidado ao tocá-las, elas podem se quebrar. Qualquer pequena instrução poderia ser pedagógica nesse sentido.

A única coisa que certamente não é clara ou correta é a de que essa triste destruição das formigas aconteceu porque a obra foi exposta em uma região próximo à uma favela. Dizer isso é afirmar que pessoas pobres não podem ou não sabem experimentar a arte. E isso não denota outra coisa senão preconceito social, pois tal afirmação não apenas é moralmente falsa, como empiricamente controvertida. Nesse caso das formigas, eu diria que isso é puro preconceito social. E, ainda que fosse o caso (apenas por amor ao debate), esta seria então a melhor das oportunidades para se denunciar e se questionar algo que permanece oculto e, entretanto, latente: quem tem e como se dá o acesso à arte em nossa cidade modelo?

Até lá, não resta outra coisa a fazer além de DAR OS PARABÉNS AO AUTOR DA OBRA pela criatividade e beleza da sua montagem, e claro, terminar com um pedido: por favor, não destruam as formigas!

Segue abaixo a matéria da Gazeta do Povo sobre o fato.

 

INTERVENÇÃO

Arte transformada pela destruição

Bastante danificada em apenas 30 horas, exposição de formigas gigantes no Jardim Botânico motiva manifesto dos autores e ganha novo significado

 

Publicado em 05/09/2013 | RAFAEL RODRIGUES COSTA

O público que for à exposição Giant III, que fica no Jardim Botânico até o dia 30 deste mês, vai encontrar uma obra bastante diferente da que foi montada no dia 30 de agosto, no gramado do parque (veja o serviço completo no Guia Gazeta do Povo). A intervenção urbana, que consistia em 21 formigas gigantes enfileiradas próximas à estufa, ganhou ares de escavação de fósseis depois de ser parcialmente destruída pelos visitantes ao longo do último fim de semana. Resistentes à ação do tempo, mas não ao peso de visitantes que se sentaram sobre elas (entre outras ações), seis peças foram totalmente destruídas e quinze sofreram algum tipo de desmembramento.

O cenário é valioso para os idealizadores da obra, já que uma de suas propostas é questionar a relação entre o público e as obras de arte. Um vídeo com o registro dessa interação, dirigido por João Marcelo Gomes, deverá ser publicado na internet em novembro. A rapidez com que a obra se deteriorou, no entanto, surpreendeu negativamente seus criadores. “A expectativa era de que as pessoas vissem, tirassem fotos, postassem nas redes sociais, fizessem piqueniques – enfim, usufruíssem de uma peça de arte fora do museu”, diz o arquiteto Guilherme Sant’Ana, idealizador do projeto.

Antônio More /Gazeta do Povo

Antônio More /Gazeta do Povo / Mesmo destruídas, as peças continuam expostas no Jardim Botânico

Mesmo destruídas, as peças continuam expostas no Jardim Botânico

 

15 das 21 formigas gigantes da exposição sofreram desmembramentos. Seis delas foram completamente destruídas.

Exposições

Veja esta e outras mostras no Guia Gazeta do Povo

A destruição motivou uma espécie de manifesto, divulgado pelos criadores da obra para a imprensa, que questiona o comportamento do público curitibano. “Uma depreciação até prevista para ocorrer naturalmente ao longo de 30 dias de exposição aconteceu em menos de 30 horas, isso tudo numa cidade onde supostamente ‘não se pisa na grama’”, diz o texto, que também identifica sarcasmo e ignorância na interação do público com as obras de arte.

“Existe um amargor, claro. É difícil, é nosso trabalho, criamos isso aqui. Mas achamos bom aproveitar para passar a questão para frente. O que os curitibanos acham disso?”, explica o produtor da Giant III, Thiago Daher.

Perguntas

Procurada pela reportagem para analisar o comportamento do público da exposição, a artista Deborah Bruel, professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, afirma que a questão vai além da interação das pessoas com a obra de arte. “É uma discussão complexa, de ordem social, sobre como experimentamos a cidade”, afirma, em entrevista por telefone. “Sem a chancela de uma instituição que a resguarda como trabalho de arte, a obra está sujeita a sofrer como sofre o mobiliário urbano. Talvez seja uma demonstração de como o público se relaciona com as coisas: ‘não é meu, está aqui, e posso fazer o que eu quiser’”, analisa.

Novo significado

De acordo com Daher e Sant’Ana – que fez outras duas mostras da série Giant em 2009 e 2010 – a ideia da obra nunca foi testar o público. Mas eles reconhecem que a destruição deu um novo significado e valor estético ao trabalho. “O único problema de uma deterioração tão veloz é que está privando outras pessoas de verem a obra”, diz Sant’Ana. “Mas, sem dúvida, ela faz parte da obra de rua, que lida com a realidade. Esse todo se transforma na obra. É uma performance coletiva.”

http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1405707&tit=Arte-transformada-pela-destruicao

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