Existe um direito de odiar? Por José Rodrigo Rodriguez

Os “inimigos” da democracia

Eu acredito que seja importante incluir experiências de vida as mais variadas em livros didáticos para crianças, inclusive a vida de travestis e transsexuais. Mas como democrata, não posso pressupor que esta visão se torne, com facilidade, a visão hegemônica em minha sociedade.

Ademais, é meu dever, em um debate público, combater racionalmente as objeções levantadas contra a minha posição sem tratá-las como argumentos “sem sentido”, articulados por “ignorantes”. E posso cobrar dos que discordam de mim a mesma atitude de respeito.

Não é nada fácil fazer isso, pois eu acredito e me identifico com minha posição. E gostaria que ela saísse vitoriosa do debate público. 

Por todas essas razões, é inteligente não subestimar o incômodo que a democracia é capaz de provocar. Tampouco o cansaço que o debate pode causar em qualquer um. Pois o sucesso desta forma de vida não está garantido de antemão.

Pode ser tentador, muitas vezes, rotular algumas pessoas de “retrógradas” e “autoritárias” e passar a combatê-las como se fossem nossas inimigas. Mas esta certamente não é a melhor maneira de lidar com a discordância. Nem a mais eficaz, nem a mais justa.

Afinal, o valor fundamental de um regime democrático é a sua capacidade de abarcar as mais diversas formas de vida para promover a diversidade de pensamento. Contra a padronização de comportamentos. 

Por esta razão, é dever de todo democrata manter ativos os valores do debate público e evitar ao máximo o uso de violência, inclusive violência simbólica.

Podemos identificar um inimigo da democracia por sua facilidade em estigmatizar o outro e por seu amor um suposto “direito de odiar”.

Aprendi com Franz Neumann: toda política que normaliza estas duas atitudes é essencialmente fascista.   

 

O stress democrático

Mas seja como for, é mais fácil e também relativamente inútil, pregar para convertidos. Pregar apenas para os que se sentem à vontade no meio da diversidade e do debate.

Mais difícil é convencer pessoas pouco afeitas ao liquidificador democrático das vantagens deste regime para a sua vida e para a vida em sociedade. Mas é preciso tentar.

Por exemplo, em troca do stress democrático, todos podem levar, no conjunto, uma vida mais livre. Livre da opressão de verdades absolutas e de autoridades que nos reduzam arbitrariamente à posição de servos obedientes à verdade “oficial”.

Sem as garantias de um regime democrático, quem der o azar de estar do lado dos mais fracos verá desaparecer a  liberdade de inventar e reinventar a sua própria vida. Pois a verdade oficial pode vir a suforcar o seu modo de viver.

Por isso mesmo, um argumento clássico a favor da democracia procura identificar valores fundamentais, um elenco mínimo deles, construído de tal forma a não sufocar a diversidade das formas de vida, garantir o debate público e excluir grupos com vocação totalitária.

 

A alienação e o custo existencial da democracia

Mas estas garantias não são suficientes para proteger os mais fracos: é preciso mais. Afinal, todo elenco de valores será objeto de críticas e divergências.

A mera possibilidade de debater todos os valores e pôr em xeque publicamente toda e qualquer forma de vida já é radical o suficiente para criar resistências profundas à democracia.

Por esta razão, além de proteger as regras fundamentais do debate é preciso manter viva a discussão sobre os valores fundamentais que a democracia irá proteger.

Pois é imprescindível manter os cidadãos ativos e influentes para além do momento do voto. Apenas assim niguém se sentirá excluído e manipulado: alienado da política. E poderá encarar as regras do debate como parte de sua existência e não como algo externo a ele ou ela.

Além disso, é necessário investigar teórica e empiricamente os custos existenciais da democracia.

Afinal, que espécie de ser humano é este, capaz de viver relativamente tranquilo em um contexto de indeterminação aguda e debate constante?

Como é possível lidar com tanta divergência e diversidade humana sem sentir que a sua identidade está ameaçada de destruição?

E em que momento as pessoas começam a sentir um cansaço capaz de empurrá-las na direção do “porto seguro” de alguma tradição ou autoridade, mesmo que claramente fabricadas para fins violentos e autoritários?

 

O futuro da democracia

Para pensar estas questões de fato será preciso olhar nos olhos dos eventuais “inimigos” do debate público. Mesmo que eles urrem, soltem fogo pelas ventas e nos devolvam um olhar feito de ódio puro.

O futuro da democracia depende da capacidade dos democratas de evitar, ao máximo e com todas as forças, a tratar quem quer que seja como um inimigo.

Pois a mera utilização desse conceito significa reconhecer que os valores do debate já foram derrotados, ao menos em um caso específico.

Cada inimigo nomeado representa uma nova agressão à ideia de democracia.

Portanto, a resposta é: não, um democrata não tem direito de odiar. Ao menos não na esfera pública, no campo do debate político.

O ódio é a prova cabal da derrota de seus valores mais fundamentais. A violência, física ou simbólica, é o recurso mais extremo e mais indesejável em que um democrata poderia pensar.

Seu uso não está excluído, mão não pode ser normal.

Em 1936 Franz Neumann defendeu que a única forma de derrotar a Alemanha nazista seria uma vitória militar exemplar.

Com a exceção destes casos extremos, só nos resta enfrentar o stress democrático com alegria.

A alegria possível a quem aceita nem sempre ter razão, mesmo nas coisas que considera essenciais.

 

http://terramagazine.terra.com.br/jose-rodrigo-rodriguez/blog/2014/08/26/existe-um-direito-de-odiar-parte-2/

http://terramagazine.terra.com.br/jose-rodrigo-rodriguez/blog/2014/08/19/existe-o-direito-de-odiar/

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